A cultura reúne formas e significados que nos permitem conhecer e reconhecer o mundo, cada indivíduo possui a capacidade intrínseca de apreender e assimilar o que percebe, estabelecendo uma ligação pessoal com o ambiente. Essas vivências únicas ressoam internamente, moldam novas perspectivas e repercutem nas interações sociais, impulsionando a constante renovação cultural. Assim, ao atribuir novos sentidos e reinterpretar a cultura, cada pessoa participa ativamente da sociedade, contribuindo para sua natureza dinâmica e inacabada. O estudioso de jogos Huizinga afirma que o ser humano constrói um mundo poético ao lado da natureza; ele não entende a natureza por si só, ele a inventa. A cultura, porventura, comporta-se como o acervo de memórias poéticas coletivas, tudo o que em um momento já foi um novo pensamento em algum instante. Entendendo que a gamecultura, nessa premissa, refere-se ao conglomerado de poéticas relacionadas propriamente aos jogos, vamos observar mais de perto as qualidades poéticas e suas relações com o ato de jogar jogos digitais.
A novidade manifesta-se fortemente como parte dos fenômenos poéticos, a poesia pode ser entendida como uma ação que gera novas formas por meio de metáforas do espaço em que estamos inseridos. A própria novidade é, de fato, inerente ao ato poético, os jogos digitais, por serem uma mídia participativa em um nível que vai além da simples ação do pensamento, permitem ao jogador poetizar o ambiente com o qual interage, à sua vontade.
É verdade que, dependendo do jogo, esse fenômeno apresenta diferentes tonalidades, alguns podem favorecer a experiência poética, enquanto outros intensificam sua força. Por exemplo, um jogo de xadrez virtual que reproduza apenas a representação 2D do jogo pode não sugerir um sentimento poético através da exaltação própria dos elementos percebidos pelos sentidos, como músicas e efeitos sonoros agradáveis aos ouvidos, ou uma beleza visual do que poderia ser um tabuleiro 3D tematizado.
Contudo, há quem veja imensa beleza no desafio que o jogo de xadrez proporciona por sua mecânica elegante ou nas faculdades mentais que ele desperta no jogador, talvez o jogador simplesmente ache a estética do xadrez elegante, nobre, rústica, clássica, seja o que for, parece, nesse caso, que não são necessários grandes estímulos dos sentidos para que o jogo desperte fortes experiências poéticas, levando a suspeitar que o jogo, por si, possui suas potencialidades poéticas próprias, vindas de suas características comuns: o duelo, o desafio, as regras, a vitória! Quanta beleza há no triunfo, o orgulho de vencer, o alívio depois de um esforço extenuante…
Entretanto, o ambiente virtual permite a criação de experiências de jogos de muitos tipos, com centenas de denominações e estilos, gêneros, jogabilidade, mecânicas, tecnologia utilizada. A poética diversifica-se na maneira de se manifestar, podemos pensar o quanto o jogo Minecraft aguça a criatividade, e induz a criar sentido em um cenário desértico e com pouca presença de narrativa. Da mesma forma, podemos pensar a poética sendo sublimada por narrativas coerentes e bem construídas que se apresentam em cenários grandiosos e cheios de detalhes.
Um exemplo contrário ao de Minecraft é Uncharted 4, no qual o ambiente encanta o jogador e o induz à contemplação imaginativa, tal como um sonho. As imagens ressoam no imaginário e repercutem na memória, revelando, pelo devaneio imagético, novidades que permitem fabulações, tudo isso por meio do pulsar do jogar que põe tudo em movimento outra vez. Essas duas perspectivas de poéticas parecem opostas, mas igualmente criadoras.
Gosto de pensar que, em jogos como Minecraft, há o que eu nomeio de Poética Solar, sendo essa a que convida o jogador a completar as lacunas subjetivas do jogo, algo que não está claramente explícito, estimulando o jogador a criar sentido e coerência narrativa. Minecraft é um jogo sandbox, um gênero conhecido literalmente como “caixa de areia”, uma alegoria ao ato de brincar, os minúsculos grãos de areia, unidos e modelados, representam novas formas imagéticas, é uma coagulação de formas. Enquanto isso, o que chamo de Poética Lunar é uma experiência com sentidos mais claros, em que o jogador percebe uma coerência que o direciona em um sentido mais definido. A poética aqui convida a mergulhar no curso da experiência e permitir a fluência do imaginário; é um processo de encolhimento em que o jogador se dissolve no jogo. Na Poética Solar, as impressões do jogo são recebidas, porém fortemente externalizadas no próprio jogo, aguçando a força de expressão, enquanto na Poética Lunar, a força de impressão é dominante, no qual o jogador internaliza.
Em meu entendimento, não há uma separação no ato de jogar entre essas duas experiências; elas se intercalam, se sobrepõem e atuam juntas. Nessas circunstâncias, surge um fenômeno verdadeiramente encantador: a capacidade do jogador, em seu imaginário, de manobrar suas experiências poéticas à seu gosto, criando e extraindo sentidos dessas materialidades virtuais, mesmo que contrário ao que o jogo induz, e aqui está a força particular dessa mídia, por mais que o imaginário seja sempre livre para tal comportamento, os jogos digitais tem em si a premissa da agência, o que amplia significativamente essa experiência, pelo fato do jogador ter determinado controle sobre o espaço e tempo do jogo. Em termos práticos, pode-se dizer que o jogador poderia desconfigurar narrativas já imbuídas e planejadas para atuar em determinada direção. Em um jogo de tiro como Call of Duty, em que toda a jogatina é linear, eu poderia atuar materialmente no espaço virtual e, no meio de um cenário de guerra, olhar para um recorte da paisagem em que tudo está belo, ou até mesmo, por meio de uma manobra de consciência imaginada, desvirtuar o caráter catastrófico da guerra e ver uma estranha beleza nessa tragédia. Em oposto, pode-se pegar o jogo The Sims e, por meio de suas possibilidades de gameplay, criar uma história particular. Em um exemplo extremo, fora do contexto de jogos digitais, criar sentido em uma pintura de um quadro abstrato onde é quase impossível enxergar alguma figuração e o observador precisa intuí-la ou criá-la. Voltando aos jogos, considero um perfeito exemplo de equilíbrio entre essas duas poéticas o jogo GTA, especialmente o quinto título da série. Nesse jogo, que apesar de ter uma linearidade narrativa na história principal, é permitido ao jogador viver experiências criadas por uma comunidade, chegando ao ponto de produzir fenômenos como o roleplay, em que jogadores, por meio do multiplayer, atuam naquele cenário fictício com suas vidas virtuais fictícias.
Mas, voltando para a experiência particular e individual, há jogadores que exploram o cenário, assaltam bancos, interagem com NPCs, assim como também criam momentos de introspecção, como dirigir um carro em uma longa estrada deserta enquanto chove e escuta uma melancólica música em uma das rádios de Los Santos. Em GTA, há uma determinada dose de coerência, tanto pelos cenários realistas, presença de reações físicas no ambiente, narrativa linear com trama culturalmente reconhecível, ao passo de que o cenário é um mundo aberto que põe pouco limites ao jogador, a física mesmo que se atende a existir em detalhes é exagerada, a narrativa por mais que comum no imaginário coletivo é distante da realidade do dia a dia comum. São decisões de design que equilibram a balança que dita o tom de experiência poética do jogador, mas a poética irá existir em todo caso.
Em síntese, os jogos digitais proporcionam um espaço para a criação e ressignificação da memória pessoal, eles nos impulsionam e também acolhem. A poética nos jogos emerge na interseção entre a interação do jogador, o ambiente digital e o significado que ele atribui à sua própria experiência. Assim, os jogos não são apenas formas de entretenimento, mas instrumentos poderosos para a construção e transformação de sentido e da experiência humana.
Atualiazado em 29/06/2025 por Daniel Gularte







